A ideia que deu origem ao cálculo
Não dá para dividir por zero — mas dá para controlar o que acontece perto dele.
A calculadora trava num ponto só
Digite na calculadora: . Erro. Agora : dez. : cem. : mil. A calculadora não tem problema nenhum com números perto de zero — responde todos. Ela trava só quando você cai exatamente em cima dele.
E não é implicância. Dividir é fazer uma pergunta específica: pergunta que número, vezes 2, dá 10 (resposta: 5). Então pergunta que número, vezes zero, dá 1 — e nenhum serve, porque qualquer número vezes zero dá zero. Já é pior: que número, vezes zero, dá zero? Cinco serve, sete serve, menos trezentos serve. Uma conta com infinitas respostas é tão inútil quanto uma sem resposta nenhuma. É por isso que dividir por zero é proibido: não é convenção, é a pergunta que quebra.
A parte interessante é que a matemática não parou na proibição. Ela trocou a pergunta: em vez de “quanto vale em zero?”, “para onde as contas estão indo perto de zero?” — e essa pergunta às vezes tem uma resposta única.
Pela direita e pela esquerda
Leve isso a sério com . Chegando a zero pela direita, um décimo dá dez, um centésimo dá cem, um milionésimo dá um milhão: escolha qualquer barreira e dá para chegar perto o bastante de zero para passar por cima dela. A função “tende ao infinito” — o que não quer dizer que ela receba um valor chamado infinito, e sim que passa de qualquer barreira e fica passando.
Só que isso é metade do gráfico. Pela esquerda, dá , dá , dá : a função despenca. Um lado sobe sem fim, o outro desce sem fim. O que a função faz chegando por valores menores é o limite lateral pela esquerda; por valores maiores, pela direita:
E a regra é: só existe limite quando os dois lados existem e concordam. Em eles apontam para lados opostos — a vizinhança de zero não tem uma resposta, tem duas. Essa é a razão honesta de não dar para dividir por zero.
O zero sobre zero que tem resposta
Agora olhe
Em , em cima dá zero e embaixo dá zero: o mesmo símbolo proibido, a função indefinida naquele ponto. Mas pergunte em volta: em ela vale ; em , ; em , . Os dois lados vão para o mesmo lugar. E dá para ver por quê:
O cancelamento exige . Então a função é a reta em todo lugar menos num ponto: uma reta com um furo. E o furo tira um ponto; não muda nada em volta. Defina na marra : o ponto passa a existir, isolado, lá em cima — e o limite continua 2. Valor no ponto e limite no ponto são duas perguntas diferentes. Quando dão a mesma resposta, a função é contínua ali:
O corredor
Um caso que parece impossível: . Perto de zero, enlouquece: troca de sinal infinitas vezes em qualquer pedacinho. Não adianta zoom — amplie, aparecem ondas novas — e nenhuma tabela salva, porque entre dois valores testados cabem infinitas oscilações não vistas.
A saída é parar de olhar para ela. Seno de qualquer coisa fica entre e . Multiplique tudo por , que é positivo:
As duas fronteiras vão para zero, então o corredor entre elas fecha. A função pode se debater quanto quiser lá dentro; o espaço onde ela se debate é que está sumindo. É o teorema do confronto: se perto de e e têm o mesmo limite , então também tem. Nenhum seno foi calculado, nenhuma oscilação localizada. A conclusão veio das barreiras. Limite não exige um caminho calmo; exige controle.
O jogo ε-δ
“Perto” e “controle” precisam virar algo preciso. Vira um jogo de dois jogadores. O adversário joga primeiro: escolhe uma tolerância vertical e desenha uma faixa dessa altura em volta de — pode ser generoso ou absurdamente cruel. Sua vez: você tem de achar uma faixa horizontal em volta de tal que todo dentro dela tenha imagem dentro da faixa dele. Se você responde qualquer que ele escolha, o limite é ; se existe um que te derrota, não é.
Jogue com perto de , com . A distância da saída até 5 é sempre o dobro da distância da entrada até 2, , então a estratégia é : ele pede um décimo, você entrega um vigésimo. Você não ganha uma rodada; ganha todas de uma vez, porque tem uma fórmula. E é isso que a definição diz:
A ordem é o coração da coisa: o vem primeiro, e o pode depender dele. Por isso é uma promessa. E repare no : é ele que faz o furo ser irrelevante. A definição nunca pergunta o que acontece no ponto — foi construída para nunca perguntar. É por isso que a proibição de dividir por zero nunca bloqueou nada.
O motor do cálculo
Então: não, você não pode dividir por zero. Mas pode fazer a única coisa que importa, controlar o que acontece perto dele — e “perto”, agora, é uma promessa: escolha a tolerância, eu entrego a proximidade.
E essa promessa resolve a pergunta que abriu o cálculo. A inclinação entre dois pontos é fácil: sobe quanto, dividido por anda quanto. Mas qual é a inclinação num ponto? Um ponto só não tem “sobe quanto” nem “anda quanto”; juntar os dois pontos dá zero sobre zero, exatamente onde se começou. A saída é a mesma do furo: não junte os pontos. Deixe uma distância , calcule a inclinação e tome o limite:
A secante vira tangente, e nasce a taxa instantânea de variação. Toda derivada é uma divisão por zero que se aprendeu a fazer direito — o assunto de o que é uma derivada.
O cálculo exigia continuidade, e a continuidade supostamente exigia o infinitamente pequeno; mas ninguém conseguia descobrir o que o infinitamente pequeno poderia ser.
Bertrand Russell
Os números do episódio
| O que o vídeo diz | Valor | De onde sai |
|---|---|---|
| 1/x em 0,1; 0,01; 0,001 | 10; 100; 1.000 | e −10, −100, −1.000 pela esquerda |
| (x² − 1)/(x − 1) em 0,9 e 0,99 | 1,9 e 1,99 | é x + 1 fora do furo |
| limite de (x² − 1)/(x − 1) em 1 | 2 | mesmo se f(1) for redefinido |
| estratégia para 2x + 1 em 2 | δ = ε/2 | |f(x) − 5| = 2|x − 2| |
| estratégia para x² sen(1/x) em 0 | δ = √ε | |f(x)| ≤ x² |
Desafios
Desafio 1 · aquecimento
Quanto vale ?
Ver a solução
, então, para , a fração é , e o limite é — embora a fração não exista em .
Desafio 2 · aquecimento
Ache a estratégia do jogo para perto de .
Ver a solução
e . Para ficar abaixo de , basta : .
Desafio 3 · pede uma ideia
Mostre que .
Ver a solução
Confronto de novo: , e as duas fronteiras vão a zero. No jogo, a estratégia é .
Desafio 4 · pede várias
vai para pelos dois lados de zero. Os lados concordam — então existe o limite?
Ver a solução
Não como número: nenhum real ganha o jogo, porque perto de zero a função passa de qualquer faixa. Escrever é uma descrição de comportamento (“passa de qualquer barreira e fica passando”), e é justamente nesse sentido que os dois lados concordam. Em nem isso: um lado vai a , o outro a .
Para ir além
- A soma infinita é a mesma definição, para sequências: o que é o infinito.
- O limite que define a inclinação num ponto: o que é uma derivada.
- No laboratório, o jogo com cinco funções.
No laboratório
As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.
Shorts deste episódio
Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.
A função que enlouquece perto de zero — e mesmo assim tem limite
O jogo de dois jogadores que define o que é um limite
Em breve no canal
1/x perto de zero — "infinito" é só metade da resposta
Zero dividido por zero tem resposta
Para assistir depois
Afinal, o que é uma derivada?
Seu velocímetro mede uma coisa que, pela definição de velocidade, não deveria existir.
Em produção
Afinal, o que é o infinito?
Qual é o maior número natural? Pense em um. Agora some um.
Em produção
A regra dos 37 por cento
Vinte apartamentos, uma visita cada, decisão na hora. Quantos você recusa só para olhar?
Em breve no canal