Afinal, o que é uma derivada?
Taxa, inclinação, sensibilidade e melhor reta local: quatro leituras do mesmo limite.
O velocímetro mede o impossível
Velocidade é distância dividida por tempo: 100 metros em 5 segundos, 20 m/s. Mas o ponteiro do carro não diz “sua média nos últimos 5 segundos”. Ele diz agora, neste instante — e um instante não tem duração. O tempo que passa nele é zero; a distância percorrida nele é zero. Zero dividido por zero, de novo.
A saída é a mesma do episódio dos limites: não chegue no instante, chegue perto dele. Imagine um carro cuja posição é metros e pergunte a velocidade em . A média num intervalo de segundos depois de 3 é
Com : 7 m/s. Com : 6,1. Com : 6,01. Com : 6,001. Cada uma é uma média honesta, com um intervalo de verdade e sem divisão por zero em lugar nenhum — e os números param de mudar. Eles se acomodam em 6. Velocidade instantânea não é uma divisão; é um limite de divisões. E esse padrão — trocar a conta impossível pelo limite das contas possíveis — é a derivada inteira.
Da secante à tangente
No gráfico de posição contra tempo, a variação de posição é o quanto se sobe; a de tempo, o quanto se anda. A divisão é a inclinação da reta que liga os dois pontos, a secante. Velocidade média e inclinação da secante não são parecidas: são a mesma coisa.
Trave o primeiro ponto e arraste o segundo em direção a ele. Os dois catetos do triângulo encolhem, ambos indo a zero — mas a razão entre eles não vai. A secante gira, e vai parando de girar. O que ela vira no limite é a reta tangente.
E aqui quase todo mundo aprende errado: a tangente não é a reta que passa por dois pontos que ficaram iguais. Dois pontos iguais não definem reta nenhuma — por um ponto passam infinitas retas. A tangente nasce do comportamento das secantes enquanto os pontos se aproximam. O objeto final é um limite, não um desenho.
O quociente de diferenças
Para qualquer função: fixe um ponto , ande um pouquinho para o lado, divida a variação da saída pela da entrada e tome o limite:
Com :
O passo que decide tudo é o cancelamento do — e ele vale porque . Sempre foi: o limite nunca deixou chegar em zero. Cancelado, sobra , e só então o limite leva o embora: . Substituir no começo destruiria a expressão; o limite deixa a informação sobreviver ao intervalo desaparecendo.
A função derivada
Até aqui a derivada foi um número, num ponto: a parábola tem inclinação 2 em , 4 em , 6 em e em (ali ela desce). Deixe o ponto correr pela curva inteira e junte as inclinações: o resultado é uma função nova, a derivada, que responde outra pergunta — a original diz onde a curva está; a derivada diz o quanto ela muda.
Para , a derivada é , uma reta, e as duas conversam: onde a reta fica abaixo do eixo, a parábola desce; onde a reta cruza o zero, a parábola tem o fundo, com tangente horizontal; onde a reta fica acima, a parábola sobe. O gráfico de baixo é um relatório sobre o de cima.
A derivada tem unidade
Derivada não é uma inclinação solta num gráfico sem rótulo: ela tem unidade, a da saída dividida pela da entrada. Posição em quilômetros e tempo em horas: quilômetros por hora, velocidade. Custo em reais e quantidade em itens: reais por item, o custo marginal. Temperatura em graus e altitude em metros: graus por metro. Mesma conta, três perguntas — é a unidade que diz qual.
E isso faz da derivada uma medida de sensibilidade: quanto a saída reage quando se cutuca a entrada. Se o custo marginal perto de cem unidades é R 12 a mais. “Uns”: a derivada é local, e usar a mesma taxa para prever cem itens a mais provavelmente erra, porque no meio do caminho a sensibilidade muda. Por isso um número sozinho não quer dizer nada: “dois” pode ser 2 m/s, R$ 2 por ingresso ou 2 °C por quilômetro — e a mesma velocidade de 2 m/s vira 120 em metros por minuto sem mudar nada do fenômeno. Interpretar uma derivada exige a função, o ponto e as unidades.
A melhor reta
Dê zoom numa curva suave, num ponto. Mais zoom. Em algum momento ela para de parecer curva: na tela, vira uma reta — a tangente. Cuidado com o que isso significa: a curva não virou reta, continua curva em qualquer ampliação. O que acontece é que o erro entre ela e a tangente encolhe mais rápido do que a escala, e some do quadro antes dela. Isso vira a fórmula talvez mais usada do cálculo:
Onde eu estou, mais o quanto eu ando, vezes a taxa com que as coisas mudam aqui. E “melhor aproximação linear” tem sentido exato: entre todas as retas que passam pelo ponto, a tangente é a única cujo erro encolhe mais rápido que o próprio ,
enquanto qualquer outra inclinação deixa um erro proporcional a , com razão .
A regra da cadeia
Muitas vezes o que se controla não afeta o resultado diretamente: mexe numa grandeza do meio, e ela mexe no resultado. Você mexe em ; mexe em ; mexe em . Duas máquinas em série: a primeira transforma uma variação em ; a segunda, em . Encaixando uma na outra, as sensibilidades se multiplicam:
O cuidado é que cada derivada é avaliada no seu próprio lugar — a de fora no valor intermediário , a de dentro em . E as unidades se encaixam como frações: por , vezes por , dá por .
Um círculo cujo raio cresce 2 cm/s: com que velocidade cresce a área? , então . Em , isso dá cm² por centímetro de raio — e chegam 2 cm de raio por segundo:
A resposta depende do raio atual: com o mesmo crescimento de 2 cm/s, um círculo maior ganha área muito mais rápido.
Para que serve, e onde falha
O sinal dá a direção: positiva, a função sobe; negativa, desce; zero, ela parou de subir ou descer naquele instante. Por isso os pontos de derivada zero são candidatos a máximo ou mínimo — candidatos, não garantia. Em , no zero, a derivada é zero e a tangente é horizontal, e não há máximo nem mínimo: a função só desacelera, encosta na horizontal e continua subindo.
Dá para derivar de novo. A derivada da derivada mede como a própria taxa muda: derive a posição e aparece a velocidade; derive a velocidade e aparece a aceleração. No gráfico, a segunda derivada é a concavidade — positiva, a curva abre para cima como uma tigela; negativa, para baixo.
Nem toda função tem derivada em todo ponto. Em , no zero, a inclinação vale pela esquerda e pela direita: os dois lados existem e discordam, como em 1/x. Não existe uma reta que imite a função ali. E é contínua no zero — sem buraco, sem salto. Continuidade é necessária para ter derivada, mas está longe de ser suficiente: bicos, quinas e cúspides são contínuos e não deriváveis.
Taxa, inclinação, melhor reta
Então, o que é uma derivada? A taxa instantânea de variação: quanto a saída muda por unidade de entrada, agora. A inclinação da tangente: a direção da curva naquele ponto. O coeficiente da melhor aproximação linear: a reta que imita a função ali melhor que qualquer outra. Não são definições concorrentes; são três leituras do mesmo limite do quociente de diferenças.
E ela só fala do local. Vem então a pergunta inversa: se eu sei a velocidade do carro em cada instante, dá para reconstruir a distância total? Multiplique a velocidade de cada instante por um pedacinho de tempo e some tudo; faça os pedaços encolherem e pergunte para onde a soma vai. Esse limite é a outra metade do cálculo: o que é uma integral.
Os números do episódio
| O que o vídeo diz | Valor | De onde sai |
|---|---|---|
| média de t² em [3, 3 + h], com h = 0,01 | 6,01 m/s | 6 + h |
| inclinação de x² em 1, 2, 3 e −1 | 2, 4, 6, −2 | f′(a) = 2a |
| custo marginal de R$ 3/item, 4 itens a mais | ≈ R$ 12 | f(a + h) ≈ f(a) + f′(a)·h |
| círculo de raio 3 cm crescendo 2 cm/s | 37,7 cm²/s | 2πr · dr/dt = 12π |
| inclinações de |x| em 0 | −1 e +1 | não existe derivada |
Desafios
Desafio 1 · aquecimento
Pelo quociente de diferenças, calcule a derivada de .
Ver a solução
. Dividindo por : , que vai a quando .
Desafio 2 · pede uma ideia
Use para estimar sem calculadora.
Ver a solução
Com , ; em , . Então . O valor verdadeiro é — erro na quarta casa.
Desafio 3 · pede uma ideia
Uma bola de neve esférica derrete perdendo 10 cm³ de volume por minuto. Quão rápido o raio diminui quando ele vale 5 cm?
Ver a solução
, então . Pela cadeia, , e cm por minuto.
Desafio 4 · pede várias
Mostre que é contínua em zero mas não tem derivada ali.
Ver a solução
O quociente é , que cresce sem teto quando pelos dois lados: a tangente é vertical, e “inclinação infinita” não é um número. A função, porém, é contínua: .
Para ir além
- A Lua cai em direção à Terra o tempo todo — e a conta que mostra isso é uma derivada segunda: a Lua está caindo.
- No laboratório, as quatro vistas juntas.
No laboratório
As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.
Shorts deste episódio
Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.
Galileu: um corpo caindo percorre 1, 3, 5, 7…
Sem palavras, só a figura.
Em breve no canal
Para assistir depois
A ideia que deu origem ao cálculo
1 ÷ 0 dá erro. 1 ÷ 0,001 dá mil. A calculadora só trava exatamente em cima do zero.
Afinal, o que é uma integral?
Quarenta minutos dirigindo, só olhando o velocímetro. Quantos quilômetros você andou?
Em produção
A Lua está caindo
Ela cai 1,36 mm a cada segundo, há bilhões de anos. Só nunca chega.
Em breve no canal