Física

Por que a noite é escura

O céu escuro é uma medida da idade do universo.

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A pergunta boba

Por que a noite é escura? A resposta que vem na hora é que o Sol se pôs. Mas essa responde por que não é dia — não explica o céu. O céu está cheio de estrelas, e estrelas brilham do mesmo jeito que o Sol brilha. A pergunta certa é: por que o céu não está aceso?

Pense num universo infinito, com idade infinita, e estrelas espalhadas por igual até onde for. Escolha uma direção qualquer e siga em linha reta. Se o universo não acaba e tem estrelas por toda parte, essa linha vai acabar batendo na superfície de alguma estrela — sempre, em qualquer direção. E se toda direção acaba numa superfície de estrela, o céu inteiro deveria brilhar como a superfície do Sol, a uns 5.772 K. Dia e noite.

Isso se chama paradoxo de Olbers, por causa de Heinrich Olbers, que o formulou em 1823 (Kepler e Halley já tinham esbarrado nele antes). E não é um erro de uns por cento: a previsão é um céu com a temperatura da superfície de uma estrela, em toda parte. O que a gente vê é preto.

Linhas de visada saindo do centro num universo sorteado. A faixa de cima é o céu visto dali. Ligue “universo infinito e eterno” e toda linha acaba numa estrela.

A conta das cascas

O argumento das linhas de visada tem uma versão em conta, mais bonita ainda. Imagine a Terra no centro e uma casca fina de estrelas em volta, a uma distância , com espessura . Se há estrelas por unidade de volume, a casca tem

e cada uma, com luminosidade , entrega aqui um fluxo de . A luz da casca inteira é o produto:

O cancela. Dobre a distância e duas coisas mudam em sentidos contrários: cada estrela fica quatro vezes mais fraca, e a casca fica quatro vezes maior, com quatro vezes mais estrelas. A casca de longe manda exatamente a mesma luz que a de perto. Num universo infinito existem infinitas cascas, e a soma de infinitas parcelas iguais diverge:

O céu não deveria ser só claro. Deveria ser infinitamente claro — a conta só para de crescer porque as estrelas da frente tapam as de trás, e aí o céu “satura” no brilho de uma superfície de estrela.

Cada casca tem estrelas proporcionais a r² e cada estrela entrega luz proporcional a 1/r²: as barras são iguais. O horizonte desliga as cascas cuja luz ainda não chegou.

As saídas que não funcionam

Poeira no caminho. Nuvens de gás e pó bloqueando a luz de longe. Não funciona: a poeira que absorve luz esquenta, e se ela recebe luz sem parar, ela esquenta até brilhar igual às estrelas. Você não apaga o céu pondo alguma coisa na frente — só troca quem está brilhando.

Estrelas tapando estrelas. Elas tapam mesmo, mas isso não escurece nada: a linha de visada só termina mais cedo, numa superfície de estrela mais próxima. É a floresta: se ela for grande o bastante, você não enxerga a saída em direção nenhuma.

Estrelas raras demais. Essa só adia. Numa floresta de estrelas de raio e densidade , uma linha de visada anda em média

antes de bater em alguma. Estrelas raras deixam enorme, mas finito — e num universo infinito a linha tem distância infinita para percorrer.

Nenhuma das três mexe no que o argumento realmente usa: que o universo é infinito no espaço e no tempo.

A resposta: o universo teve um começo

É aí que a premissa quebra. O universo tem idade — uns 13,8 bilhões de anos —, e a luz, rápida mas não instantânea, só trouxe até aqui o que estava perto o bastante para chegar nesse tempo. Além dessa distância a luz ainda está a caminho. A soma das cascas não é infinita: ela para.

Dá para medir o quanto ela para. Com a densidade média de estrelas do universo — uns por megaparsec cúbico — e estrelas do tamanho do Sol, o livre caminho médio de uma linha de visada é da ordem de

(A conta exata com esses valores dá 2,0 × 10²⁴.) A luz teve tempo de percorrer uns . A fração do céu coberta por estrelas é então

— 7 × 10⁻¹⁵ pela conta. Para acender o céu inteiro, as estrelas precisariam brilhar por anos, e elas vivem uns . Não deu tempo.

E o que chega vem esticado

Por cima disso, o universo está em expansão, e a luz que vem de muito longe chega com o comprimento de onda esticado pelo mesmo fator que o espaço esticou durante a viagem. Esticar luz é enfraquecer luz: cada fóton chega com menos energia, e eles chegam mais espaçados no tempo. A luz das galáxias mais distantes chega vermelha, depois infravermelha, e no limite deixa de ser visível.

A escuridão da noite não é ausência de estrelas. É o tempo de viagem delas.

O céu está aceso

E aqui o episódio dá a volta. Olhe o céu noturno com uma antena de micro-ondas em vez de com os olhos: ele não é preto. Ele brilha em toda direção, com uma uniformidade absurda — a radiação cósmica de fundo, a 2,725 K.

É luz de quando o universo inteiro era quente e opaco, uns 380 mil anos depois do começo. Toda linha de visada realmente termina numa superfície brilhante, como Olbers queria — só que essa superfície está há quase 14 bilhões de anos no passado, e a expansão esticou aquela luz uns 1.101 vezes. Um corpo a uns 3000 K, com pico de emissão perto de 966 nm (laranja incandescente), virou um corpo a 2,7 K com pico em 1,06 mm.

A luz de 3000 K do universo jovem, esticada até virar micro-ondas. A curva dourada é o Sol, para comparação.

Quem acertou primeiro

Quem escreveu a resposta certa primeiro não foi um astrônomo. Foi Edgar Allan Poe, em 1848, no ensaio em prosa Eureka: a única explicação para os vazios do céu, escreveu ele, é que a luz das estrelas mais distantes ainda não teve tempo de chegar até nós. Oito décadas antes de alguém medir a expansão do universo.

A pergunta mais simples que uma criança faz sobre o céu tem como resposta que o universo teve um começo. O escuro é a observação.

Os números do episódio

O que o vídeo diz Valor De onde sai
idade do universo 13,8 bilhões de anos medida cosmológica
temperatura da radiação cósmica de fundo 2,725 K medida por satélites (COBE)
pico de emissão dessa radiação 1,06 mm lei de Wien: b/T
fator de esticamento desde a emissão ≈ 1.101 1 + z
luz de cada casca a mesma n·4πr²·dr × L/(4πr²) = nL·dr
livre caminho médio de uma linha de visada ~2 × 10²⁴ anos-luz 1/(nπR²), n ~ 10⁹ estrelas/Mpc³
ano de Eureka, de Poe 1848 ensaio em prosa

Desafios

Desafio 1 · aquecimento

Se o brilho de uma estrela cai com o quadrado da distância, por que a casca a 1 bilhão de anos-luz manda a mesma luz que a casca a 1 milhão de anos-luz?

Ver a solução

Porque a casca mil vezes mais distante tem área vezes maior e, com a mesma densidade, um milhão de vezes mais estrelas — cada uma um milhão de vezes mais fraca. Os dois fatores de cancelam exatamente.

Desafio 2 · pede uma ideia

Num plano (o “universo” da figura), uma linha de visada tem seção de choque em vez de . Mostre que a chance de uma linha andar uma distância sem bater em nenhuma estrela é .

Ver a solução

Corte o caminho em pedaços de comprimento . Em cada um, a linha bate numa estrela se o centro de uma estrela cair numa faixa de largura em volta dela: chance . Sobreviver a todos os pedaços tem chance — o mesmo produto de “quase 1” que aparece no problema do aniversário.

Desafio 3 · pede várias

Mesmo num universo eterno, as estrelas não vivem para sempre. Por que isso sozinho não resolve o paradoxo num universo infinito e eterno com estrelas nascendo e morrendo o tempo todo?

Ver a solução

Porque num universo eterno e estacionário sempre haveria estrelas brilhando a qualquer distância: as que morrem são substituídas, e a densidade média de estrelas acesas continua a mesma. A conta das cascas só usa essa densidade média. O que salva o céu escuro é a luz das estrelas distantes não ter tido tempo de chegar — o que exige um universo de idade finita, ou um universo que se expande depressa o bastante para esticar e diluir essa luz.

Para ir além

  • O livro clássico sobre o assunto é Darkness at Night: A Riddle of the Universe, de Edward Harrison (1987), que mostra que a idade finita das estrelas e do universo é a resposta principal, e a expansão um efeito adicional.
  • A radiação cósmica de fundo foi descoberta por acidente em 1965, por Arno Penzias e Robert Wilson, que procuravam a origem de um ruído na antena deles.
  • A soma infinita que diverge é a mesma família de perguntas de o que é o infinito.

No laboratório

As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.

Shorts deste episódio

Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.

1:28

A conta que diz que a noite devia ser clara

Em breve no canal

1:35

Por que a noite é escura

Em breve no canal

Para assistir depois

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